Existem bandas que marcaram uma geração. Existem bandas que criaram um gênero. E existem poucas que conseguem fazer as duas coisas ao mesmo tempo. Siouxsie and the Banshees pertencem a esse segundo grupo. Ao lado de Joy Division, The Cure, Bauhaus e Killing Joke, os Banshees ajudaram praticamente a definir a linguagem do pós-punk. Sua influência atravessa décadas e pode ser ouvida em artistas tão diferentes quanto Radiohead, PJ Harvey, Massive Attack, Garbage, Interpol e Savages. No centro dessa história sempre esteve uma figura quase mítica: Siouxsie Sioux. Diferentemente de muitos artistas de sua geração, Siouxsie sempre cultivou uma aura de mistério. Concedeu inúmeras entrevistas ao longo da carreira, mas raramente falou sobre sua vida pessoal. Mesmo após o fim dos Banshees e dos Creatures, preferiu deixar que sua obra falasse por ela. É justamente por isso que a autobiografia de Budgie, The Absence: Memoirs of a Banshee Drummer, provoca tanta discussão entre os fãs. Lançado em inglês em 2025, ainda sem edição brasileira ou tradução para o português, o livro acabou se tornando uma das poucas fontes de primeira mão sobre a intimidade de uma das relações mais importantes da história do rock alternativo. Mas quem espera um livro de fofocas encontra algo bem diferente. Budgie escreve como músico. Como sobrevivente. E principalmente como alguém tentando entender a própria vida. Muito antes de ser “o marido da Siouxsie” Peter Edward Clarke — o Budgie — já era um nome conhecido na cena punk inglesa antes mesmo de entrar nos Banshees. Depois de tocar nos Spitfire Boys e no Big in Japan, Budgie gravou com as Slits o histórico álbum Cut, desenvolvendo um estilo de bateria completamente diferente do rock tradicional. Seu jeito de tocar era quase tribal. Mais percussivo do que técnico. Mais emocional do que virtuoso. Foi justamente essa abordagem que chamou a atenção quando entrou nos Siouxsie and the Banshees, em 1979, inicialmente para substituir Kenny Morris durante a turbulenta turnê do álbum Join Hands. Embora não fosse integrante da formação original, rapidamente se tornou o baterista definitivo da banda. Para muitos fãs, simplesmente não existe a fase clássica dos Banshees sem Budgie. Discos como Kaleidoscope, Juju, A Kiss in the Dreamhouse, Hyæna, Tinderbox e Peepshow ajudaram a transformar o grupo em uma referência absoluta do pós-punk. Mais tarde, ele e Siouxsie criariam também The Creatures, projeto paralelo muito mais experimental, baseado inicialmente quase exclusivamente em voz e percussão. Ali, pela primeira vez, a relação artística entre os dois parecia completamente equilibrada. Não existia “a banda da Siouxsie”. Existia uma dupla. Muito além da música O livro mostra como trabalho e vida pessoal se tornaram praticamente impossíveis de separar. Eles eram casal. Compunham juntos. Gravavam juntos. Saíam em turnê juntos. Administravam problemas financeiros juntos. Enfrentavam empresários, gravadoras e mudanças de formação juntos. Pouquíssimos casais passaram tanto tempo vivendo praticamente vinte e quatro horas por dia lado a lado. Essa proximidade extrema, que durante anos alimentou uma criatividade impressionante, acabou se transformando também em uma prisão emocional. Budgie descreve uma relação construída sobre enorme cumplicidade, mas também sobre inseguranças, dependência afetiva, abuso de álcool e uma rotina exaustiva de turnês. Os dois bebiam muito. Durante anos. Em diversos momentos, ele reconhece que o álcool passou a ser uma forma de anestesiar ansiedade, frustrações e conflitos que nunca eram realmente resolvidos. Não há tentativa de esconder isso. Pelo contrário. Talvez a maior qualidade do livro seja justamente admitir seus próprios erros antes de apontar os da parceira. A mulher por trás do ícone Quem conhece apenas a figura pública de Siouxsie encontra aqui uma imagem muito mais humana. Ela aparece extremamente inteligente. Controladora em alguns momentos. Muito sensível em outros. Carismática. Generosa. Criativamente obsessiva. Também aparece irritada, insegura, cansada e profundamente afetada pelos excessos da vida na estrada. É justamente essa humanização que gerou polêmica. Muitos fãs acusaram Budgie de expor demais a antiga companheira. Mas é difícil imaginar como contar quase três décadas de vida em comum sem contar também a história da pessoa com quem ele dividiu praticamente tudo. Ele nunca escreve para ridicularizá-la. Ao contrário. Mesmo nos capítulos mais dolorosos, deixa evidente o respeito que continua tendo por ela como artista. O reconhecimento pela importância de Siouxsie na música nunca desaparece. Existe, evidentemente, uma questão sem solução: o livro apresenta a versão de Budgie sobre uma relação íntima com uma artista que sempre preservou essa parte de sua vida e que não publicou sua própria versão dos acontecimentos. Ainda assim, minha leitura não foi a de um ajuste de contas. O Brasil como ponto de virada Um dos capítulos mais fortes do livro acontece justamente no Brasil. Não por causa de um grande show. Nem por alguma história extravagante de turnê. Mas porque Budgie identifica essa passagem pelo país como um momento decisivo para reconhecer que havia perdido o controle sobre o álcool. Segundo o episódio narrado por ele no livro, durante a passagem dos Banshees pelo Rio de Janeiro, nos anos 1990, o relacionamento já apresentava sinais claros de desgaste. As discussões eram constantes. O consumo de bebida havia se tornado parte da rotina. E o músico percebe que está repetindo comportamentos que já não consegue controlar. Budgie relata episódios constrangedores, uma discussão intensa com Siouxsie no hotel e uma profunda sensação de culpa. Em uma tentativa quase desesperada de reparar a situação, conta ter comprado um anel na H.Stern, no Rio de Janeiro. O gesto simboliza muito mais do que um presente. É uma tentativa de pedir perdão. De recuperar algo que ambos pareciam sentir escapar lentamente. De consertar com uma joia aquilo que já não podia ser resolvido apenas por meio de gestos românticos. Mas o próprio Budgie reconhece que presentes não resolvem problemas estruturais. Naquele período, o relacionamento já carregava muitos anos de tensões acumuladas. Os dois praticamente viviam para a banda. Dormiam separados durante muitas turnês. Tinham rotinas diferentes. Passavam meses viajando. A música, que havia unido o casal, começava também a separá-los. É nesse contexto que Budgie começa a
