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Budgie abre a porta da casa dos Banshees: a autobiografia que revela o lado humano de uma das maiores bandas da história do pós-punk

Existem bandas que marcaram uma geração. Existem bandas que criaram um gênero. E existem poucas que conseguem fazer as duas coisas ao mesmo tempo.

Siouxsie and the Banshees pertencem a esse segundo grupo.

Ao lado de Joy Division, The Cure, Bauhaus e Killing Joke, os Banshees ajudaram praticamente a definir a linguagem do pós-punk. Sua influência atravessa décadas e pode ser ouvida em artistas tão diferentes quanto Radiohead, PJ Harvey, Massive Attack, Garbage, Interpol e Savages.

No centro dessa história sempre esteve uma figura quase mítica: Siouxsie Sioux.

Budgie
Siouxsie and the Banshees (Budgie), Siouxsie e Steve Severin

Diferentemente de muitos artistas de sua geração, Siouxsie sempre cultivou uma aura de mistério. Concedeu inúmeras entrevistas ao longo da carreira, mas raramente falou sobre sua vida pessoal. Mesmo após o fim dos Banshees e dos Creatures, preferiu deixar que sua obra falasse por ela.

É justamente por isso que a autobiografia de Budgie, The Absence: Memoirs of a Banshee Drummer, provoca tanta discussão entre os fãs. Lançado em inglês em 2025, ainda sem edição brasileira ou tradução para o português, o livro acabou se tornando uma das poucas fontes de primeira mão sobre a intimidade de uma das relações mais importantes da história do rock alternativo.

Mas quem espera um livro de fofocas encontra algo bem diferente. Budgie escreve como músico. Como sobrevivente.

E principalmente como alguém tentando entender a própria vida.

Budgie

Muito antes de ser “o marido da Siouxsie”

Peter Edward Clarke — o Budgie — já era um nome conhecido na cena punk inglesa antes mesmo de entrar nos Banshees.

Depois de tocar nos Spitfire Boys e no Big in Japan, Budgie gravou com as Slits o histórico álbum Cut, desenvolvendo um estilo de bateria completamente diferente do rock tradicional.

Seu jeito de tocar era quase tribal.

Mais percussivo do que técnico.

Mais emocional do que virtuoso.

Foi justamente essa abordagem que chamou a atenção quando entrou nos Siouxsie and the Banshees, em 1979, inicialmente para substituir Kenny Morris durante a turbulenta turnê do álbum Join Hands.

Embora não fosse integrante da formação original, rapidamente se tornou o baterista definitivo da banda.

Para muitos fãs, simplesmente não existe a fase clássica dos Banshees sem Budgie.

Discos como Kaleidoscope, Juju, A Kiss in the Dreamhouse, Hyæna, Tinderbox e Peepshow ajudaram a transformar o grupo em uma referência absoluta do pós-punk.

Mais tarde, ele e Siouxsie criariam também The Creatures, projeto paralelo muito mais experimental, baseado inicialmente quase exclusivamente em voz e percussão.

Ali, pela primeira vez, a relação artística entre os dois parecia completamente equilibrada.

Não existia “a banda da Siouxsie”. Existia uma dupla.

Muito além da música

O livro mostra como trabalho e vida pessoal se tornaram praticamente impossíveis de separar.

Eles eram casal. Compunham juntos. Gravavam juntos. Saíam em turnê juntos.

Administravam problemas financeiros juntos. Enfrentavam empresários, gravadoras e mudanças de formação juntos.

Pouquíssimos casais passaram tanto tempo vivendo praticamente vinte e quatro horas por dia lado a lado.

Essa proximidade extrema, que durante anos alimentou uma criatividade impressionante, acabou se transformando também em uma prisão emocional.

Budgie descreve uma relação construída sobre enorme cumplicidade, mas também sobre inseguranças, dependência afetiva, abuso de álcool e uma rotina exaustiva de turnês. Os dois bebiam muito. Durante anos.

Em diversos momentos, ele reconhece que o álcool passou a ser uma forma de anestesiar ansiedade, frustrações e conflitos que nunca eram realmente resolvidos. Não há tentativa de esconder isso. Pelo contrário.

Talvez a maior qualidade do livro seja justamente admitir seus próprios erros antes de apontar os da parceira.

A mulher por trás do ícone

Quem conhece apenas a figura pública de Siouxsie encontra aqui uma imagem muito mais humana. Ela aparece extremamente inteligente. Controladora em alguns momentos.

Muito sensível em outros. Carismática. Generosa. Criativamente obsessiva.

Também aparece irritada, insegura, cansada e profundamente afetada pelos excessos da vida na estrada.

É justamente essa humanização que gerou polêmica. Muitos fãs acusaram Budgie de expor demais a antiga companheira.

Mas é difícil imaginar como contar quase três décadas de vida em comum sem contar também a história da pessoa com quem ele dividiu praticamente tudo.

Ele nunca escreve para ridicularizá-la. Ao contrário.

Mesmo nos capítulos mais dolorosos, deixa evidente o respeito que continua tendo por ela como artista.

O reconhecimento pela importância de Siouxsie na música nunca desaparece.

Existe, evidentemente, uma questão sem solução: o livro apresenta a versão de Budgie sobre uma relação íntima com uma artista que sempre preservou essa parte de sua vida e que não publicou sua própria versão dos acontecimentos.

Ainda assim, minha leitura não foi a de um ajuste de contas.

Budgie

O Brasil como ponto de virada

Um dos capítulos mais fortes do livro acontece justamente no Brasil. Não por causa de um grande show. Nem por alguma história extravagante de turnê. Mas porque Budgie identifica essa passagem pelo país como um momento decisivo para reconhecer que havia perdido o controle sobre o álcool.

Segundo o episódio narrado por ele no livro, durante a passagem dos Banshees pelo Rio de Janeiro, nos anos 1990, o relacionamento já apresentava sinais claros de desgaste. As discussões eram constantes. O consumo de bebida havia se tornado parte da rotina. E o músico percebe que está repetindo comportamentos que já não consegue controlar.

Budgie relata episódios constrangedores, uma discussão intensa com Siouxsie no hotel e uma profunda sensação de culpa.

Budgie

Em uma tentativa quase desesperada de reparar a situação, conta ter comprado um anel na H.Stern, no Rio de Janeiro. O gesto simboliza muito mais do que um presente. É uma tentativa de pedir perdão.

De recuperar algo que ambos pareciam sentir escapar lentamente. De consertar com uma joia aquilo que já não podia ser resolvido apenas por meio de gestos românticos.

Mas o próprio Budgie reconhece que presentes não resolvem problemas estruturais. Naquele período, o relacionamento já carregava muitos anos de tensões acumuladas.

Os dois praticamente viviam para a banda. Dormiam separados durante muitas turnês. Tinham rotinas diferentes. Passavam meses viajando.

A música, que havia unido o casal, começava também a separá-los.

É nesse contexto que Budgie começa a tomar uma das decisões mais importantes de sua vida: parar de beber. O marco de sua sobriedade é 1995, mas ele não romantiza esse processo. Conta as dificuldades. Os momentos em que acreditou conseguir controlar o consumo e descobriu que não conseguia. E também as recaídas que fizeram parte desse caminho.

A sobriedade aparece como uma reconstrução lenta, imperfeita e profundamente humana. Mais do que um capítulo sobre alcoolismo, é um capítulo sobre assumir responsabilidade.

E o fato de essa consciência surgir no Brasil dá ao episódio um peso especial para o leitor brasileiro: o Rio não aparece apenas como cenário de uma turnê, mas como o lugar em que o baterista começa a perceber que a vida que levava havia se tornado insustentável.

O fim de um casamento — e não de uma história

Grande parte da repercussão do livro gira em torno do término do relacionamento. Siouxsie e Budgie se casaram em 1991, depois de anos juntos, e se divorciaram em 2007. Alguns leitores enxergaram Budgie como alguém tentando justificar uma traição.

Outros acreditaram que ele expôs excessivamente Siouxsie.

Minha leitura foi diferente.

O autor não tenta se colocar apenas como vítima. Ele admite seus erros. Reconhece que magoou a companheira. Assume ter se apaixonado por outra pessoa quando o casamento já estava profundamente desgastado. Também deixa claro que o relacionamento havia deixado de funcionar muito antes da separação oficial.

Não existe um “vilão”. Existe um casal que passou décadas vivendo praticamente fundido — emocional, profissional e artisticamente — até que essa fusão deixou de ser sustentável.

É impossível ignorar também a assimetria que sempre existiu entre os dois.

Siouxsie era o rosto da banda. Seu nome estava na frente. Sua imagem representava o grupo. Budgie era o baterista — ainda que um dos mais influentes do pós-punk e um dos responsáveis diretos pela identidade sonora dos Banshees. Essa diferença de protagonismo parece atravessar silenciosamente todo o livro.

Nos Creatures, essa relação parecia mais equilibrada. Nos Banshees, porém, ele sempre ocupava um papel secundário perante o público, mesmo sendo indispensável para o som da banda.

Essa tensão nunca é tratada de maneira abertamente ressentida, mas pode ser percebida nas entrelinhas.

Depois do fim dos Banshees, os dois passaram a concentrar sua atividade nos Creatures. Também viveram durante anos em uma propriedade no sudoeste da França, na região de Condom. O que poderia parecer um refúgio acabou aumentando o isolamento.

Longe de Londres, dos amigos e de boa parte da indústria musical, eles passaram a depender ainda mais um do outro — como casal, como dupla criativa e como parceiros de negócios.

Quando o relacionamento começou a desmoronar, não havia muita coisa ao redor capaz de amortecer a queda.

Depois dos Banshees

Os dois seguiram caminhos diferentes. Budgie refez a vida. Casou novamente. Teve filhos.

Continuou gravando e participando de diferentes projetos, incluindo colaborações com John Grant.

Budgie

Mais recentemente, formou com Lol Tolhurst — baterista e tecladista da formação clássica do The Cure — e o produtor Jacknife Lee o projeto Los Angeles, que lançou um álbum em 2023.

Siouxsie manteve sua característica discrição. Lançou o álbum solo Mantaray, em 2007.

Fez poucas turnês. Participou, em 2013, do festival Meltdown, em Londres, cuja curadoria naquele ano foi de Yoko Ono.

Em 2023, voltou aos palcos para uma série de apresentações na Europa, mostrando que sua presença continuava tão magnética quanto nos anos dourados dos Banshees.

Permanece uma artista que prefere desaparecer entre um projeto e outro a transformar a própria vida em espetáculo.

Talvez seja justamente por isso que o livro de Budgie tenha causado tanto impacto. Durante décadas, ela escolheu preservar o silêncio. Ele escolheu escrever.

Um livro sobre música — e sobre pessoas

É fácil reduzir esta autobiografia à história do fim de um casamento.

Seria um erro. O livro fala sobre criação artística.

Sobre a perda da mãe de Budgie ainda na infância, ausência que dá título ao livro e atravessa toda a sua narrativa.

Sobre envelhecer. Sobre alcoolismo. Sobre amizade. Sobre culpa. Sobre memória.

E principalmente sobre duas pessoas que passaram grande parte da vida adulta tentando equilibrar amor e arte dentro de uma das bandas mais influentes da história do rock.

Budgie

Como leitor — e como fã de longa data dos Banshees e dos Creatures — não terminei o livro admirando menos Siouxsie. Muito pelo contrário. Passei a enxergá-la de forma mais humana e entender um pouco mais a mulher e a artista.

O mesmo aconteceu com Budgie. Não encontrei um homem tentando destruir o mito de Siouxsie Sioux.

Encontrei alguém tentando entender como dois artistas extraordinários, que criaram uma música capaz de atravessar gerações, também eram vulneráveis às mesmas fragilidades que qualquer casal enfrenta.

Talvez essa seja a maior qualidade do livro. Ele não derruba um mito.

Ele apenas nos lembra que, por trás de duas figuras fundamentais do pós-punk, existiam duas pessoas tentando sobreviver ao peso da fama, das turnês, dos vícios, da criação artística e de uma relação que durou décadas.

Budgie não sai inocente do próprio relato — e não parece tentar sair. Ele reconhece a bebida, o ciúme, os afastamentos, a paixão por outra pessoa e a dor que provocou. Ao expor Siouxsie, expõe antes de tudo a si mesmo.

É possível discutir se algumas intimidades deveriam ter permanecido privadas. Mas não li The Absence como uma tentativa de diminuir Siouxsie.

Li como o relato de alguém tentando compreender uma relação que foi amor, casamento, banda, criação, negócio, dependência e abrigo — tudo ao mesmo tempo.

Minha leitura é que  The Absence é simultaneamente um memoir necessário e um memoir problemático. 

Necessário porque dá a Budgie a espessura artística e humana que muitas vezes ficou à sombra do mito Siouxsie e problemático porque mesmo tomando cuidado corre sim o risco de converter sinceridade em exposição. 

Entre esses dois pólos, o livro encontra sua verdade imperfeita: a de mostrar que uma das parcerias mais importantes do pós-punk foi feita não só de visão estética e genialidade, mas também de trauma, vício, dependência, dor e desgaste. 

E, justamente por isso, essa autobiografia talvez seja menos uma história sobre o fim das bandas do que sobre o preço, muitas vezes invisível, de dedicar uma vida inteira à arte.

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Adriana de Barros

Adriana de Barros
Arte • Cultura • Música

Adriana de Barros

Jornalista musical

Adriana de Barros é jornalista musical com mais de três décadas de trajetória no mercado cultural e de entretenimento. Atualmente, integra a parte estratégica do Sonora, projeto de música do portal Terra, apresenta o podcast Afiadas, da ONErpm, e é integrante do programa Morde & Assopra às sextas-feiras, na rádio Energia 97 FM, participando do debate com foco em música.

Em sua trajetória, foi editora do site da TV Cultura, idealizadora e apresentadora do programa Mistura Cultural, veiculado nas mídias digitais da emissora e na rádio Cultura Brasil, e também apresentou o Educa Podcast, projeto que conecta os universos da música e da educação.

Integra os principais júris de premiações do país, sendo jurada de música da APCA, Associação Paulista dos Críticos de Arte, e do Prêmio Arcanjo de Cultura.

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