Há algo de volta para casa na chegada de Luv(sic) ao Brasil no Tour Hexalogy.
Em outubro, o rapper japonês Shing02 sobe aos palcos do Cine Joia, em São Paulo, no dia 17, e do Circo Voador, no Rio de Janeiro, no dia 20, para apresentar a Luv(sic) Hexalogy, série criada com o produtor japonês Nujabes e transformada, ao longo de mais de duas décadas, em uma das obras emblemáticas do encontro entre hip-hop, jazz e cultura japonesa contemporânea.
As apresentações fazem parte da Luv(sic) Hexalogy Latin America Tour 2026, que passa por México, Colômbia, Brasil, Argentina, Chile e Peru.
Mas há uma razão especial para essa estreia acontecer por aqui: o Brasil não é apenas um destino da turnê. A música brasileira é parte fundamental da própria construção de Luv(sic).
Antes do lo-fi hip-hop, Nujabes
Nascido Jun Seba, em Tóquio, Nujabes desenvolveu uma linguagem particular dentro do hip-hop,. Seus beats misturavam samples, jazz, soul, piano, contrabaixo, sopros e uma sensibilidade melódica incomum.
Anos depois, parte dessa estética seria reconhecida por uma geração muito mais jovem no chamado lo-fi hip-hop ou chillhop. Reduzir Nujabes a “pai do lo-fi”, porém, seria simplificar sua importância.
Ele era essencialmente um produtor de hip-hop e pesquisador de discos, interessado em encontrar sons que pudessem ser desmontados e reconstruídos. E nesse universo havia uma presença recorrente: a música brasileira.
MPB, bossa nova e jazz brasileiro ofereciam exatamente alguns dos elementos que se tornariam característicos de sua música — harmonias sofisticadas, melodias delicadas e uma relação peculiar entre ritmo e melancolia.
Essa influência não é apenas estética. Ela está nos próprios samples.
O Brasil já estava dentro de Luv(sic)
A história começou por volta de 2000, quando Nujabes entrou em contato com Shing02, rapper nascido em Tóquio, que viveu também na Tanzânia, Inglaterra e Estados Unidos e se aproximou profundamente do hip-hop na cena independente da Bay Area californiana.
Desse encontro nasceu “Luv(sic)”, lançada em 2001. O que poderia ter sido uma colaboração isolada se transformou em uma conversa musical que atravessaria anos.
E em três dos seis capítulos da Hexalogy aparecem gravações brasileiras.
Em “Luv(sic) Part 2”, Nujabes utiliza “Qualquer Dia”, composição de Ivan Lins e Vitor Martins, na gravação de Elis Regina com participação do próprio Ivan Lins, de 1977.
Em “Luv(sic) Part 3”, a fonte é “Tens (Calmaria)”, composição de Ivan Lins e Ronaldo Monteiro de Souza, na interpretação de Nana Caymmi, registrada em 1975.
Não se trata, portanto, de uma vaga influência brasileira. Nujabes estava ouvindo, selecionando e transformando gravações brasileiras em matéria-prima para construir seu hip-hop no Japão.
E a conexão reapareceria justamente no capítulo final.
Ivan Lins no Grand Finale
Nujabes morreu em fevereiro de 2010, aos 36 anos, após um acidente de trânsito em Tóquio. A Hexalogy ainda não estava concluída.
Shing02 e músicos próximos ao produtor continuaram o projeto. Entre os materiais deixados por Nujabes estava o instrumental que se transformaria em “Luv(sic) Grand Finale / Part 6”.
Nele encontramos novamente o Brasil: “Choro das Águas”, composição de Ivan Lins e Vitor Martins, gravada por Ivan no álbum Somos Todos Iguais Nesta Noite, de 1977.
Forma-se assim um arco curioso: Ivan Lins está em Part 2, Nana Caymmi em Part 3 e Ivan retorna no Grand Finale.
Metade dos seis capítulos de Luv(sic) possui uma conexão direta com fonogramas brasileiros.
E esse interesse não ficou restrito à Hexalogy. Em outra faixa conhecida de Nujabes, “Lady Brown”, com Cise Starr, encontramos um sample atribuído a “The Shade of the Mango Tree”, de Luiz Bonfá.
O Brasil fazia parte da discoteca de Nujabes.
Quando o hip-hop encontrou o anime
Existe outro elemento fundamental para explicar por que essa música alcançou uma audiência tão ampla: Samurai Champloo.
Lançado em 2004 e dirigido por Shinichirō Watanabe, o anime realizou uma combinação improvável e decisiva: colocou o Japão do período Edo, samurais e espadas para conviver com beats, scratches, grafite e referências à cultura hip-hop.
Nujabes foi um dos principais nomes de sua trilha sonora. E “Battlecry”, produzida por ele e cantada por Shing02, tornou-se o tema de abertura da série.
Para muita gente fora do Japão, Samurai Champloo foi a porta de entrada para os dois artistas.
Essa ligação permanece especialmente forte porque o público atual de Nujabes não é formado apenas por quem viveu o hip-hop dos anos 2000.
Há uma geração que chegou depois, através do anime, YouTube, streaming, playlists, games e da explosão mundial do lo-fi.
O caminho muitas vezes aconteceu ao contrário: do lo-fi ao jazz hip-hop; do jazz hip-hop a Nujabes; de Nujabes a Samurai Champloo; e daí a Shing02 e Luv(sic).
Por isso, seus shows hoje conseguem reunir fãs de hip-hop, colecionadores de discos e uma geração conectada à cultura anime e ao universo digital japonês.
Uma celebração, não um tributo
Há ainda uma diferença importante na proposta da turnê.
Shing02 não está simplesmente interpretando a obra de alguém que morreu. Ele faz parte dessa história.
É sua voz e são suas letras nas seis partes de Luv(sic). É o parceiro que construiu essa obra junto com Nujabes e agora retorna a ela mais de duas décadas depois.
Na América Latina, Shing02 estará acompanhado por Spin Master A-1, DJ, produtor e turntablist com quem mantém uma longa parceria, e pelo guitarrista Sam Nakamura.
A formação também ajuda a transportar para o palco algo essencial à estética de Nujabes: o encontro entre DJ e músico, beat e instrumento, sample e performance ao vivo.
Finalmente, Brasil
É por tudo isso que os shows de outubro representam mais do que duas apresentações internacionais.
No palco estarão se encontrando o hip-hop independente da Califórnia, a cultura dos DJs de Tóquio, o jazz, Samurai Champloo, a cultura anime e uma nova geração que descobriu tudo isso pela internet.
Mas também estarão Ivan Lins, Elis Regina, Nana Caymmi e, em sentido mais amplo, a enorme tradição da música brasileira que alimentou a pesquisa sonora de Nujabes.
Antes de Luv(sic) chegar ao Brasil, portanto, o Brasil já estava dentro de Luv(sic).
Discos brasileiros atravessaram oceanos, chegaram às mãos de um produtor em Tóquio, foram recortados e transformados em hip-hop e voltaram a circular pelo planeta através de vinil, anime, internet e streaming.
Agora esse percurso se completa.
Mais de vinte anos depois, Luv(sic) chega pela primeira vez aos palcos brasileiros celebrando justamente aquilo que sempre esteve no centro da obra de Nujabes: o encontro entre culturas que parecem distantes, mas descobrem na música uma linguagem comum.
Serviço
LUV(SIC) HEXALOGY LATIN AMERICA TOUR 2026
Shing02 + Spin Master A-1 + Sam Nakamura
São Paulo
17 de outubro de 2026 — Cine Joia
Ingressos: Shotgun
Comprar ingressos — São Paulo
Fontes para referência e checagem: Discografia Brasileira e IMMuB para discografia, autoria e músicos brasileiros; MusicBrainz para créditos de Modal Soul; entrevista de Shing02 à Bandwagon Asia (2026) para a história e legado de Luv(sic); KQED para a relação Nujabes–Shing02; além de catálogos japoneses especializados em hip-hop e vinil para a identificação dos samples.