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Reeperbahn 2026: 20 artistas e 5 ideias para entender o futuro da música

Reeperbahn

Depois de quatro coberturas do SXSW em Austin e de duas experiências no HackTown, desembarcamos em Hamburgo para ampliar o radar: olhar a música e a tecnologia pela perspectiva europeia, descobrir novas cenas — inclusive do Sul Global — e tentar entender para onde a cultura está indo.

Há alguns anos, acompanhar festivais deixou de ser apenas uma forma de descobrir novas bandas. Passou a ser também uma maneira de observar o futuro.

Depois da sequência de coberturas do South by Southwest, em Austin, e de duas experiências no HackTown e no Rio WebSummit, no Brasil, fomos percebendo que música, tecnologia, comportamento, mercado e cultura já não podem mais ser observados separadamente.

As transformações estão acontecendo ao mesmo tempo.

Um novo artista nasce dentro de uma lógica de plataformas. Uma música passa a circular guiada por algoritmos. Ferramentas de inteligência artificial começam a interferir na criação, na produção e até na própria definição de autoria. 

Ao mesmo tempo, cenas locais continuam surgindo em garagens, pequenos clubes, periferias, selos independentes e comunidades culturais que muitas vezes operam à margem das grandes estruturas da indústria.

É nesse território de tensão entre tecnologia e cultura, globalização e identidade, inovação e sobrevivência artística que temos tentado construir nossa cobertura.

E nossa próxima parada será Hamburgo na Alemanha.

Entre 16 e 19 de setembro, estaremos no Reeperbahn Festival, um dos principais encontros de música e indústria criativa da Europa, acompanhando shows, debates, novos artistas e algumas das discussões que hoje ajudam a redefinir o mercado musical.

Se o SXSW nos permitiu observar essas transformações a partir de um ambiente profundamente influenciado pela tecnologia, pelo mercado e pela cultura dos Estados Unidos, chegar agora à Europa nos oferece a oportunidade de ampliar esse enquadramento.

Porque talvez seja justamente aí que esteja a parte mais interessante da experiência. Não se trata de substituir uma visão pela outra, mas de colocar perspectivas diferentes em diálogo.

Austin nos mostrou muito sobre plataformas, inovação, inteligência artificial, novos negócios e sobre a velocidade com que a tecnologia americana influencia a cultura global.

Hamburgo pode nos ajudar a perceber outros movimentos.

A força das políticas culturais europeias. A sobrevivência dos clubes independentes. O papel dos festivais de showcase. As tensões entre concentração de mercado e diversidade. A relação entre tradição e contemporaneidade. A emergência de artistas vindos de outros centros culturais. E, principalmente, como diferentes territórios estão tentando imaginar o futuro da música sem abrir mão de suas próprias identidades.

Reeperbahn: a cidade como festival

Criado em 2006, o Reeperbahn Festival transformou o bairro de St. Pauli, em Hamburgo, em um dos grandes pontos de encontro da nova música europeia.

Durante quatro dias, clubes, teatros, bares, salas de concerto, galerias e espaços culturais passam a funcionar como uma grande rede de descoberta. Não existe exatamente um único palco principal.

Existe uma cidade.

E talvez essa seja uma das características mais interessantes do festival. Você atravessa Hamburgo caminhando entre shows de artistas conhecidos e apresentações de nomes sobre os quais talvez nunca tenha ouvido falar.

No meio do caminho, encontra profissionais de selos, agentes, produtores, jornalistas, artistas, plataformas, startups e pessoas tentando responder, cada uma à sua maneira, à mesma pergunta:

para onde a música está indo?

Essa também será a pergunta que levaremos conosco.

Um radar, não um ranking

Com centenas de atrações espalhadas pela programação, qualquer tentativa de acompanhar tudo seria impossível.

Então resolvemos fazer aquilo que já fazemos no SXSW: construir um radar próprio.

Não necessariamente os maiores artistas.Não necessariamente aqueles com mais streams.

Mas artistas que, por razões diferentes, nos parecem representar movimentos interessantes da música contemporânea. Alguns já cruzaram nosso caminho.

É o caso da Agatha is Dead!, que encontramos durante nossa cobertura do SXSW 2026 em Austin e que agora reaparece no nosso roteiro em Hamburgo.

Essa continuidade nos interessa. Porque acompanhar um artista em diferentes festivais, países e momentos da carreira também ajuda a perceber como essas redes internacionais de showcase funcionam na prática.

Ao lado deles, nosso primeiro radar para o Reeperbahn reúne outros 19 nomes.

20 artistas que queremos encontrar em Hamburgo

Agatha is Dead! — Alemanha
Um reencontro depois de Austin — e uma boa oportunidade para acompanhar como a trajetória da banda continua atravessando circuitos internacionais de showcases.

English Teacher — Reino Unido
Uma das bandas mais interessantes da nova geração britânica, transitando entre indie e pós-punk com uma escrita especialmente atenta ao cotidiano.

Fat Dog — Reino Unido
Punk, eletrônico, techno, rave e uma energia de palco que parece traduzir perfeitamente uma das mutações mais interessantes da música britânica atual.

Dream Wife — Reino Unido/Islândia
Punk, performance, feminismo e atitude. Uma banda que continua lembrando que música pode ser também linguagem política, física e coletiva.

Better Joy — Reino Unido
Uma das apostas do novo indie britânico e exatamente o tipo de nome que queremos encontrar em um festival de descoberta antes que os palcos fiquem muito maiores.

Concrete Vehicles — Reino Unido
Psicodelia, guitarras e ruído a partir de uma abordagem contemporânea para uma tradição que insiste em encontrar novas formas.

CULK — Áustria
Art-rock e pós-punk vindos de Viena, construindo uma música mais sombria, atmosférica e experimental.

Das Beat — Alemanha/Canadá
New wave, synthpop, indie e eletrônico conectados à cena berlinense e a uma sensibilidade pop que naturalmente atravessa fronteiras.

Die Cigaretten — Alemanha
Garage, proto-punk, wave e indie diretamente de Hamburgo. Um daqueles casos em que estar fisicamente na cidade faz parte da própria experiência de descobrir a banda.

Dov’è Liana — Itália
Vindos de Palermo, misturam indie, house, dream-pop e uma construção estética muito própria. Um daqueles projetos que podem entrar no festival como descoberta e sair dele em outra escala.

GANNA — Ucrânia/Alemanha
Tradição vocal ucraniana, jazz, loops, eletrônica e experimentação convivendo dentro de uma mesma linguagem. Talvez uma das atrações mais simbólicas desta edição.

Maryna Krut — Ucrânia
A bandura, instrumento tradicional ucraniano, deixa de aparecer como peça histórica e passa a fazer parte de uma música absolutamente contemporânea.

Kazdoura — Síria/Líbano/Canadá
Música árabe, psicodelia, funk, soul e eletrônico. Um projeto nascido entre culturas e que parece existir justamente para mostrar como essas fronteiras podem deixar de fazer sentido.

The SoapGirls — África do Sul
Rock, punk, grunge, atitude DIY e uma trajetória construída longe dos centros tradicionais da indústria — com uma presença de palco que faz parte central da proposta.

WizTheMc — África do Sul/Alemanha
Hip-hop, pop e R&B construídos entre continentes. Um bom exemplo de como novas carreiras musicais já não precisam obedecer às antigas fronteiras nacionais.

Nectar Woode — Reino Unido/Gana
Soul, jazz e pop partindo de Londres, mas atravessados pelas raízes musicais ganesas da artista e por uma abordagem muito contemporânea de composição.

Jamaica Moana — Māori/Samoana, Austrália
Hip-hop, R&B, ballroom, eletrônico, ancestralidade e identidade. Um dos exemplos mais interessantes de como referências profundamente locais podem gerar uma linguagem imediatamente contemporânea.

ena mori — Filipinas/Japão
Art-pop e eletrônico de uma artista filipino-japonesa que faz parte de uma geração asiática cada vez mais presente nos festivais internacionais de descoberta.

Chinese American Bear — EUA/China
Pop bilíngue, psicodelia, indie e referências chinesas se encontrando em uma estética lúdica que parece pertencer exatamente a este momento híbrido.

Anna von Hausswolff — Suécia
Órgão, drone, música experimental e art-rock em uma experiência que provavelmente estará entre os momentos mais intensos de Hamburgo.

A lista não pretende prever quem será “a próxima grande coisa”. Talvez seja justamente o contrário.

Em um festival de descoberta, interessa menos confirmar aquilo que já conhecemos do que encontrar algo que ainda não sabemos exatamente como nomear.

Reeperbahn

E o que está acontecendo fora dos palcos?

O Reeperbahn não é apenas um festival de shows.É também uma conferência sobre o negócio da música.

E essa talvez seja a outra metade da viagem.

Depois de acompanhar durante anos no Texas e no Brasil discussões sobre inteligência artificial, plataformas, economia criativa, novos modelos de distribuição e o futuro do trabalho cultural, queremos observar como essas mesmas questões aparecem quando atravessamos o Atlântico.

Há um eixo particularmente interessante na edição de 2026: “Forever Legit?”

A pergunta é provocativa. A indústria musical, tal como está organizada hoje, ainda é sustentável?

Para os artistas?

Para as casas de show?

Para os pequenos selos?

Para compositores?

Para quem está fora dos grandes mercados?

Para culturas que não falam inglês?

E o que acontece quando inteligência artificial, algoritmos e plataformas passam a ocupar uma parte cada vez maior dessa equação?

Cinco discussões estarão especialmente no nosso radar.

1. Música, inteligência artificial e novas tecnologias

Provavelmente nossa prioridade número um.

É uma continuação direta das questões que estamos levando também ao HackTown.

O músico virou dataset?

Quem controla os dados usados para treinar modelos de inteligência artificial?

O que acontece com autoria, remuneração e propriedade intelectual?

E, principalmente: a IA será uma ferramenta para ampliar a criatividade ou mais uma camada de concentração dentro da indústria?

2. Music beyond the stage

Outro debate interessante parte de uma pergunta diferente.

Qual é o papel do artista além do palco?

Em contextos de guerra, crise política, transformação social ou perda de referências culturais, música também pode funcionar como memória, resistência e construção de comunidade.

A forte presença ucraniana nesta edição torna essa discussão ainda mais relevante.

3. Keychange, gênero e diversidade estrutural

Há alguns anos, diversidade deixou de ser apenas uma questão de line-up.

Passou a ser uma discussão sobre estruturas.

Quem dirige festivais? Quem trabalha nos estúdios? Quem controla selos?

Quem programa? Quem investe?

Quem desenvolve tecnologia?

E quem continua ficando fora desses espaços?

O trabalho do Keychange transformou o Reeperbahn em um dos lugares centrais desse debate.

4. Sync e novos caminhos para a música

Cinema, séries, publicidade, games e plataformas digitais se tornaram mercados fundamentais para artistas independentes.

Num cenário em que streaming sozinho dificilmente sustenta uma carreira, entender esses caminhos passa a ser uma questão de sobrevivência econômica.

E também há uma pergunta brasileira aí:

como artistas do Brasil e do Sul Global entram efetivamente nesse mercado?

5. O futuro da música ao vivo

Talvez uma das questões mais urgentes da Europa neste momento.

Custos de turnê subindo. Pequenos clubes fechando.

Ingressos mais caros. Concentração de grandes promotores.

Festivais disputando artistas.

Artistas independentes tentando equilibrar logística, remuneração e público.

Depois de tantos anos rodando por clubes, festivais e circuitos independentes, esse é um debate que queremos acompanhar não apenas como imprensa, mas também a partir da experiência prática de quem vive esse ecossistema.

Austin, HackTown, Hamburgo

É aí que as viagens começam a formar uma espécie de mapa.

Sim, Austin nos mostrou uma parte do futuro. O HackTown e a Rio Web Summit nos permitiram discutir essas transformações a partir do Brasil.

A Alemanha acrescentará uma visão com perspectiva de um mercado maduro como a Europa. E talvez o mais importante seja justamente colocar essas três visões lado a lado.

Porque o futuro da música provavelmente não será americano.Nem europeu.Nem asiático. Nem latino-americano.

Será resultado da tensão e da colaboração entre todos esses lugares.

O desafio é descobrir quem terá voz dentro desse futuro.

Quem será remunerado. Quem controlará a tecnologia. Quem continuará criando cenas independentes. Quem conseguirá atravessar fronteiras.

E quais culturas serão capazes de participar desse novo ecossistema sem simplesmente serem transformadas em dados, samples ou referências estéticas para plataformas globais.

É isso que queremos procurar em Hamburgo.

Acompanhe com a gente

Durante o Reeperbahn Festival, nossa cobertura estará dividida em três frentes.

No Zona Curva no YouTube, entrevistas, música, conversas e descobertas direto de Hamburgo.

No blog da Adriana de Barros, textos, reflexões e uma leitura mais aprofundada sobre os artistas que encontrarmos pelo caminho, as tendências que atravessam o festival e as transformações culturais que ajudam a explicar o que está acontecendo na música agora.

E no Instagram do Trenderias, a cobertura mais imediata: bastidores, encontros, vídeos, primeiras impressões e os destaques de cada dia.

Não queremos simplesmente contar quem tocou.

Queremos descobrir quem merece ser ouvido, observar o que está surgindo e tentar entender o que tudo isso significa.

Hamburgo é mais uma etapa dessa viagem.

Depois de Austin, HackTown e Reeperbahn, nosso mapa continua se expandindo.

Em outubro, a próxima parada será Paris.

MaMA Music & Convention.

Mas essa é outra história.

E vai ter mais.

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