Cultura e Variedades Arte de Rua Lifestyle Podcasts Rolês

Como Manuela Navas transformou telas íntimas em projeções para o show “O Grande Encontro do Samba”

Manuela Navas


A obra de Manuela Navas está presente nas projeções do show “O Maior Encontro do Samba”, que reúne Alcione, Zeca Pagodinho e Jorge Aragão. A artista transita com naturalidade entre as artes plásticas, a música e a literatura nacional. Com passagens por exposições de destaque no circuito nacional e internacional, além de parcerias com nomes como Marcelo D2 e o escritor Itamar Vieira Junior, a pesquisa da artista visual investiga como memórias individuais se transformam em herança coletiva. Em entrevista, ela pontua os desafios de levar a pintura para a escala dos grandes estádios e debate os rótulos frequentemente atribuídos à produção de mulheres negras nas artes visuais. Leia na íntegra a entrevista exclusiva com a artista.

Recentemente, o seu trabalho ganhou uma escala monumental e uma conexão direta com a música popular brasileira ao assinar as projeções visuais do show O Maior Encontro do Samba, que reuniu no palco Alcione, Zeca Pagodinho e Jorge Aragão. Como aconteceu o convite e qual foi a sensação de ver suas pinturas ganhando proporções gigantescas ao lado dessas três lendas da música brasileira?
Manuela Navas: Recebi o convite este ano do queridíssimo Batman Zavarese, com quem já havia trabalhado anteriormente na cenografia do show Zeca Pagodinho 40 Anos e também no projeto da Aliança Global, festival do G20 sediado no Rio de Janeiro. Voltar a colaborar com ele foi uma honra imensa. Além disso, integrar uma equipe tão talentosa, ao lado de artistas que admiro, como Bea Machado, Yan e tantos outros profissionais brilhantes, tornou essa experiência ainda mais especial. Estar ao lado de Alcione, Zeca Pagodinho e Jorge Aragão é algo que ultrapassa qualquer sonho que eu poderia ter. São artistas que escuto desde a infância, que fazem parte da minha formação como brasileira e que, de muitas maneiras, também me ensinaram a olhar para o mundo. A música deles atravessa a minha história e a de tantas pessoas no Brasil. Ver minhas pinturas ganhando essa escala e dialogando com a música deles foi emocionante. Meu trabalho em sua maioria parte da imagem, mas ele também nasce do ritmo e da memória, então quando essas pinturas passam a ocupar um palco dessa dimensão, com todo o olhar do Batman por trás, conversando também com as músicas dos gigantes Alcione, Zeca Pagodinho e Jorge Aragão, é como se tudo tomasse outra forma de um forma muito bonita.  Contribuir visualmente para um espetáculo que reúne três das maiores referências do samba brasileiro foi uma alegria difícil de colocar em palavras.

A música de Zeca, Alcione e Jorge Aragão narra a vida, o amor, a boemia e o cotidiano do subúrbio e das periferias, temas muito fortes na sua identidade visual. Como foi o processo criativo para traduzir as músicas deles em imagens? Você criou obras inéditas para o show ou adaptou algo do seu acervo?
Todas as imagens utilizadas na cenografia eram obras que já faziam parte da minha produção. Eu não criei pinturas inéditas especificamente para o espetáculo, e isso foi muito bonito de perceber, porque revelou que já existia um diálogo natural entre o meu trabalho e o universo da Alcione, Zeca Pagodinho e Jorge Aragão. Embora seja muito comum associar minha produção à representação da periferia e toda a caixa que me colocam, por ser uma mulher negra, que cresceu em lugares à margem e etc, penso que o que venho fazendo até aqui, com meu trabalho é, antes de tudo, sobre memória. É claro que eu pinto a partir de quem eu sou, de onde eu vim e dos territórios que me constituíram. Essas experiências atravessam inevitavelmente as imagens. Mas meu interesse está menos em retratar um lugar específico e mais em investigar como as memórias individuais se tornam memórias coletivas. Acho que é justamente aí que meu trabalho encontra a obra dos três. As músicas falam de amor, amizade, cotidiano, festas, perdas, encontros e da vida coletivizada. São narrativas profundamente enraizadas na experiência brasileira e, ao mesmo tempo, capazes de despertar lembranças muito íntimas em cada pessoa. Nós viemos de contextos diferentes, pertencemos a gerações diferentes, mas existe um fio comum que atravessa essas histórias. Talvez esse fio seja justamente a memória, a afetividade e a forma como transformamos nossas vivências em linguagem. Foi muito emocionante perceber que minhas pinturas já carregavam esse diálogo antes mesmo de estarem naquele palco.

Diferente da pintura estática na tela ou no papelão, o cenário de um grande show envolve movimento, luzes e o ritmo da música. Quais foram os maiores desafios técnicos e artísticos para fazer a sua pintura dialogar com a dinâmica do palco de um show de estádio/arena?
Essa é uma pergunta que passa muito pelo trabalho do Batman Zavarese, que foi o grande artista responsável pela concepção visual do espetáculo. É ele quem pensa como as imagens, a iluminação, a música e o tempo de cada canção se encontram para construir a experiência cênica. Existe um trabalho de direção muito sofisticado por trás disso. No meu caso, a contribuição foi oferecer um conjunto de imagens que carregam uma potência narrativa e simbólica. A forma como essas pinturas passaram a ganhar movimento, dialogar com a luz e acompanhar o ritmo do show foi resultado desse olhar sensível da direção e de toda a equipe. Acho que o mais bonito dessa experiência foi perceber como uma pintura, que normalmente nasce para um tempo mais contemplativo, pode adquirir uma nova vida quando encontra a música. No palco, ela deixa de ser apenas uma imagem fixa e passa a existir como parte de um espetáculo.

Trabalhar com música não é uma novidade para você. Você já fez parte da ocupação IBORU, de Marcelo D2, e em 2024 teve obras suas como parte do cenário da turnê de 40 anos do Zeca Pagodinho. De que forma sua pesquisa visual acabou se conectando de maneira tão forte com o universo do samba e da música urbana?
Eu acho que essa conexão acontece porque o samba nasce de uma experiência coletiva, de um modo de existir coletivamente no Brasil. E sinto que o meu trabalho também parte muito desse lugar. Para além de todas as questões que atravessam a minha pesquisa, eu penso muito sobre o coletivo. Penso no que é existir como uma mulher negra, mas não apenas dentro da ideia de comunidade enquanto território periférico. Falo da coletividade como aquilo que nos constitui enquanto povo. Eu me pergunto o que era existir para a minha mãe, para a minha avó, para quem me precedeu. O que significava viver naquele contexto? E tudo o que compõe essa experiência acaba aparecendo na pintura: os símbolos, as memórias, e consequentemente algumas das imagens que conectam outras pessoas. Quando colaboro com o Marcelo D2, em “Iboru”, que propõe essa ideia de um novo samba tradicional, quando faço parte da turnê de 40 anos do Zeca Pagodinho, que reúne a produção de toda uma vida, e agora de “O Maior Encontro do Samba”, acredito que existe justamente esse elo em comum. Mesmo sendo artistas de gerações diferentes e com trajetórias distintas, há um interesse compartilhado em pensar essas narrativas e trazer diferentes perspectivas sobre o que é existir no Brasil. No fundo, é também uma forma de coletivizar a memória. De tentar contar, cada um à sua maneira, um pouco do que é ser brasileiro. Claro, sempre a partir de um microcosmo, de um recorte específico, mas entendendo que essas pequenas histórias podem revelar algo maior.

Ainda no campo da música, você assinou as pinturas do álbum “Pelos olhos do mar – Lia & Daúde”. Como foi criar a identidade visual para o encontro dessas duas potências da música e o que você buscou transmitir nas telas para refletir a sonoridade desse disco?
Nesse projeto, eu assinei as pinturas que compõem a identidade visual do álbum, enquanto o design ficou a cargo do Alexandre Caldeira, que fez um trabalho impecável ao construir esse diálogo entre as obras e a música. As pinturas utilizadas já faziam parte da minha produção. Eu não criei imagens inéditas para o álbum, mas foi muito bonito perceber como elas encontraram uma conversa tão natural com Pelos Olhos do Mar. Acho que esse encontro aconteceu justamente porque tanto a minha pesquisa quanto o trabalho da Lia de Itamaracá e da Daúde lidam, cada um à sua maneira, com memória, ancestralidade e imaginação. Foi uma honra poder colaborar com duas artistas tão importantes para a música brasileira e que também pavimentaram a forma que eu vejo o mundo, pois já as escutava  e admirava. São mulheres de outra geração, de outros territórios e de outras experiências, mas que também ajudam a pensar o que é ser brasileira a partir de perspectivas muito potentes.

Além dos palcos, você também já produziu trabalhos marcantes para o mercado editorial e fonográfico. Um exemplo disso é a sua coautoria nas pinturas do livro “Chupim”, de Itamar Vieira Junior (Editora Baião/Todavia). Como foi o processo de traduzir a literatura e as palavras de um dos maiores escritores do Brasil atual?
Poder assinar a coautoria de “Chupim” ao lado do gigante Itamar Vieira Junior, um escritor e um ser humano que eu admiro profundamente, foi uma das maiores alegrias da minha carreira. Ter vivido essa experiência ainda jovem foi um privilégio enorme. Foi um processo muito desafiador, porque eu estava construindo uma narrativa visual ao lado de um dos maiores escritores brasileiros da atualidade. Ao mesmo tempo em que me senti muito honrada, também senti uma grande responsabilidade de estar à altura da potência do texto que ele havia criado. O Itamar foi genial ao escrever “Chupim”. Ele consegue abordar temas complexos, como o trabalho no campo, o trabalho infantil, as relações com a terra e as diferentes formas de existir, traduzindo tudo isso para as infâncias com muita sensibilidade. Ao mesmo tempo, ele nos convida a deslocar o olhar, a imaginar o mundo também a partir da perspectiva de um pássaro, do chupim, e isso amplia profundamente a narrativa. Traduzir essa literatura em imagens foi um grande desafio, mas também um enorme aprendizado. Ver Chupim nascer, ser recebido com tanto carinho e conquistar prêmios é muito emocionante. É um trabalho do qual tenho muito orgulho e que ocupa um lugar muito especial na minha trajetória. Também sou profundamente grata a toda a equipe da Baião/Todavia, que foi impecável durante todo o processo. Trabalhar com profissionais tão competentes, cuidadosos e respeitosos fez toda a diferença para que texto e imagens encontrassem um diálogo tão bonito.

Seja ilustrando um livro ou a capa de um álbum, o seu trabalho precisa dialogar diretamente com a criação de outro artista (um escritor ou músico). Como é para você esse exercício de criar sob a inspiração de uma outra obra de arte? Muda muito a sua liberdade criativa em relação às suas pinturas autorais do ateliê?
No caso dos projetos fonográficos, eu não cheguei a criar obras inéditas. As pinturas utilizadas já faziam parte da minha produção e encontraram um diálogo com aqueles trabalhos. Já nos livros, o processo foi diferente. Criei imagens especificamente para essas publicações, como em “Chupim”, do Itamar Vieira Junior, na edição de “Memórias de um Sargento de Milícias”, da Antofágica, na capa de “Balanço Afiado”, do Allan da Rosa e Deivison Faustino, e também algumas capas das obras da Conceição Evaristo lançadas pela editora Malê no ano passado, além de um novo projeto que será lançado este ano pela editora Bazar do Tempo.
Mas, para mim, pensar a pintura a partir de textos já faz parte do meu processo criativo. É sempre um desafio, mas não é algo que esteja fora da minha prática. Eu já trabalho constantemente lendo e criando a partir de ideias, de conceitos e de outras linguagens. A série Black to the Future, por exemplo, nasce do título de um álbum de jazz. A própria ideia da série, o manifesto que ela propõe e muitas das questões que ela desenvolve surgem desse encontro. Depois, claro, meu trabalho ganha autonomia e constrói um corpo próprio, mas esse diálogo inicial já está presente. Da mesma forma, muitas pinturas autorais do meu ateliê também nascem da leitura. Já desenvolvi trabalhos a partir de ideias de textos da Lélia Gonzalez e, atualmente, estou desenvolvendo pinturas pensando as obras da Saidiya Hartman e da Christina Sharpe, escritoras que admiro profundamente. Por isso, quando surge um convite para dialogar com a obra de outro artista, eu não sinto que a minha liberdade criativa diminui. Pelo contrário. Eu começo a pensar: como posso contar essa história visualmente? Como posso interceptar essa mensagem e traduzi-la em imagem? É claro que a pintura será sempre uma leitura, uma interpretação, mas é justamente isso que torna esse processo tão instigante para mim. Tem uma frase da Clarice Lispector em Água viva que é bem simples mas que resume muito do que eu desejo quando eu olho pra uma ideia e penso em transformar na minha linguagem: “[…]Quero apossar-me do É da coisa”. 

O seu trabalho transita por múltiplas mídias, incluindo pintura, fotografia, vídeo e xilogravura, com um olhar para temas como os corpos negros, o feminino e o maternar. Como essas diferentes técnicas se complementam na hora de construir o que você chama de um “diário imaginado”, misturando suas vivências pessoais e memórias familiares com a ficção e a fabulação? 
Olhando para a minha produção mais recente, eu tenho trabalhado principalmente com pintura e desenho. Mas gosto de pensar na liberdade de poder trazer cada ideia da forma que ela deva se manifestar, na mídia que for necessário. Acho que, quando queremos comunicar alguma coisa, cada obra pede uma forma própria de existir. Por isso, eu não penso muito nessas linguagens como algo que necessariamente se complementa. Penso que cada ideia encontra a materialidade de que precisa e forma e tempo próprio de nascer. Quando proponho um trabalho, não parto da pergunta “qual materialidade vou usar?”. Eu parto da ideia e vou entendendo qual linguagem faz mais sentido para ela. Às vezes, ela pede a pintura, outras vezes, a fotografia, em outros momentos, o vídeo ou até mesmo uma combinação dessas linguagens. É claro que, na pintura, eu parto muito do desenho, mas também das fotografias que faço, dos vídeos que assisto, das músicas que escuto, dos textos que leio. Tudo isso atravessa o processo.

Sua trajetória transita por espaços muito diversos, desde mostras coletivas históricas no circuito nacional, como “Dos Brasis” (Sesc Belenzinho) e “Funk” (MAR), até a sua exposição individual internacional “Lembranças inventadas” na Itália. Ao mesmo tempo, sua arte ganhou as ruas no festival NaLata e ocupou o formato de cenários e projeções monumentais em palcos como a turnê de 40 Anos do Zeca Pagodinho, a ocupação IBORU do Marcelo D2 e o Festival Aliança Global do G20. Como é para você equilibrar esses diferentes contextos? De que forma essa mudança de escala altera a recepção do público com a sua obra? 
Acho que uma coisa importante é entender que todos esses trabalhos citados partiram da pintura. Seja em exposições, em capas de livros, em cenografias ou em projeções monumentais, a linguagem que deu origem a tudo isso foi a pintura. No caso do Festival NaLata, por exemplo, foi um mural, mas ainda assim uma pintura. É muito bonito ver uma linguagem que, em geral, é pensada como algo estático, contemplativo, bidimensional, encontrando outros espaços e outras formas de existir. Ver a pintura dialogando com a música, com a literatura, com a cidade, com grandes exposições e com outros artistas é algo que me emociona muito. Ao mesmo tempo, acho que isso conversa diretamente com a forma como eu penso o meu trabalho. Eu pinto muito a partir de mim, daquilo que eu vivi, do que eu conheço e do que eu sinto. Eu só tento falar sobre aquilo que acredito compreender minimamente. Mas, enquanto faço isso, também estou o tempo inteiro pensando no coletivo: em quem veio antes de mim e nas histórias que nos atravessam. Então, quando a minha pintura passa a ocupar espaços que também são coletivos, sinto que existe uma espécie de fechamento desse ciclo. É como se aquilo que nasceu de uma experiência muito íntima encontrasse outras pessoas e outras histórias. Existe um eco, uma conversa que se completa. Isso me deixa muito feliz e muito grata. É bonito perceber que essa voz não está sozinha, que ela encontra outras vozes e outros modos de existir. Acho que, no fim, é justamente isso que faz sentido para mim: entender que uma experiência individual pode produzir uma conversa coletiva.

Acompanhe o trabalho de Manu Navas: https://www.instagram.com/navas_manuela/

Compartilhe

Adriana de Barros

Adriana de Barros
Arte • Cultura • Música

Adriana de Barros

Jornalista musical

Adriana de Barros é jornalista musical com mais de três décadas de trajetória no mercado cultural e de entretenimento. Atualmente, integra a parte estratégica do Sonora, projeto de música do portal Terra, apresenta o podcast Afiadas, da ONErpm, e é integrante do programa Morde & Assopra às sextas-feiras, na rádio Energia 97 FM, participando do debate com foco em música.

Em sua trajetória, foi editora do site da TV Cultura, idealizadora e apresentadora do programa Mistura Cultural, veiculado nas mídias digitais da emissora e na rádio Cultura Brasil, e também apresentou o Educa Podcast, projeto que conecta os universos da música e da educação.

Integra os principais júris de premiações do país, sendo jurada de música da APCA, Associação Paulista dos Críticos de Arte, e do Prêmio Arcanjo de Cultura.

Siga no Instagram

Instagram

@dribarrosreal

Acompanhe os últimos posts, bastidores, novidades e atualizações da Adriana de Barros no Instagram.

Ver no Instagram

Afiadas

Esse você vai querer ouvir até o fim.

Receba minha Newsletter!

Edit Template

Afiadas

Minha Playlist do Mês

© 2026 Adriana de Barros